No Portugal dos Pequenitos que é o futebol nacional, tudo pode acontecer. Na mesma semana em que três equipas se apuram para os quartos de final das competições internacionais (o Sporting, na Liga dos Campeões, o FC Porto e o Sporting de Braga, na Liga Europa), houve um treinador despedido por quase chegar a vias de facto com um presidente e um árbitro agredido por um treinador num jogo de sub-11.
No entanto, ao contrário do que seria de esperar, a nossa autografia tende a aproximar-nos consecutivamente da caricatura do Tugão, onde episódios como os dois últimos são o pão nosso de cada dia, ao invés de nos agarrarmos ao primeiro feito histórico. De tal maneira que estratégias para preservar o bom caminho são ridicularizadas na praça pública.
A Liga Portugal esteve bem ao adiar o Sporting-Tondela, e disso não há dúvidas. Se deveria ter agido de outra maneira e reservar, desde logo, uma data para a realização do jogo? Sim, até porque os beirões são uns dos mais sérios candidatos à despromoção, e até podem já chegar ao mesmo matematicamente condenados à II Liga, mas é um passo na direção correta.
Estranho é o cavalo de batalha em que o FC Porto tornou tudo isto, ora pela voz do presidente, André Villas-Boas, ora pela voz do sempre bem ordenado treinador, Francesco Farioli, que, desde que chegou sempre pautou pela maneira como embarcou na narrativa de quem manda, invocando, inclusive, o caso Calabote, desconhecendo (ou fazendo por isso) certos episódios da história do próprio clube que representa.
A sete jornadas do final do campeonato, o FC Porto é líder isolado, com sete pontos de vantagem sobre os eternos rivais (ainda que um deles tenha o tão badalado jogo em atraso). Está nos quartos de final da Liga Europa. Está nas meias finais da Taça de Portugal (ainda que em desvantagem, perante o Sporting). Se isto é o FC Porto quando está bem, dá medo pensar o que será quando não estiver.
Falar de “tratamento especial” é o mesmo que dizer que se está a roubar a uns para dar a outros. É trocar por palavras bonitas o gesto que o próprio Francesco Farioli continua (e bem) a insistir pelo qual Luis Suárez seja castigado, em mais um ‘circo’ digno de terceiro mundo que ameaça arrastar-se até à próxima temporada, quem sabe, quando Luis Suárez já por cá não estiver.
É um discurso tão escusado como o de José Mourinho, que admitiu, sem pudores, que “não gostava mesmo” que o Sporting fosse campeão europeu (“o último em Portugal fui eu”). Atitudes que deveriam envergonhar ambos, em especial, se tivermos em comparação a elevação com que Rui Borges, o homem que até “taberneiro” chegou a ser chamado, vai lidando com tudo isto.
Sobre as palavras de Francesco Farioli, limitou-se a falar de “ruído” e seguiu em frente. Sobre as de José Mourinho, sublinhou que deseja “sempre que os portugueses ganhem”. Uma postura que não mudou, sequer, perante a vergonha que foi o cartão amarelo exibido a Luis Suárez, em Alverca, por um João Pinheiro que não teve outro objetivo a não ser salvar a própria pele.
Semana após semana, lesão após lesão, crítica após crítica, o treinador do Sporting tem vindo a colocar o foco onde o mesmo é necessário: no trabalho, o mesmo pelo qual pede, e bem, “respeito”. A renovação está a caminho, e é mais do que merecida, para alguém que, neste Portugal dos Pequenitos, não passa de um intruso, pela maneira como atua, dentro e fora de campo.





